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O Festival de Publicidade de Cannes, que começa no próximo domingo, vem sob o signo da crise. Citando-se números, teremos 40% menos delegados presentes e 20% menos peças, projetos ou campanhas concorrendo aos disputados Leões. Fala-se de redução do número de festas e pequenas mordomias, bem como questiona-se o papel de uma premiação dessa estatura, cercada de excessos de todo tipo em um ano marcado pela contenção.
É bom lembrar, entretanto, que a crise é feita tanto de números quanto de psicologia. A instabilidade do mercado mundial, iniciada em setembro de 2008, quase acabou escondendo a verdadeira crise que a publicidade vem enfrentando há quase uma década: a de identidade. Agências de todos os setores e anunciantes vem debatendo intensamente uma revisão de papéis e conceitos. As dúvidas são muitas e as conclusões ainda são poucas. No meio de tudo isso, sobrou pro Festival de Cannes, que também parece a cada ano rever sua persona.
Criado em 1954 para celebrar o que de melhor se fazia em termo de filmes publicitários, o Festival manteve-se bem dessa forma por 36 anos. A partir de 1990, entretanto, uma série de premiações e atrações paralelas começaram a dividir atenção com os filmes. Foi nessa época que surgiram os primeiros seminários e as premiações Print & Outdoor, Cyber Lions e Media Lions. Mesmo assim, ao longo de mais 15 anos as salas de projeções de filmes ao longo da semana continuaram a ser os lugares mais freqüentados do Festival. Ainda em 2005, minha primeira vez como delegado, eu e o Axel nos impressionamos como havia pouco interesse pelos seminários e pelas projeções da recém incluída oficialmente – porém claramente importante – categoria Titanium. Em 2008, quando voltei, a história já era outra. Os seminários, já acompanhados dos workshops, eram quase tão disputados quando as projeções dos filmes.

Em 2009, uma pequena surpresa: o Festival de Cannes começa a se vender mais enfaticamente em seu website como um lugar não só de premiação e badalação, mas também de aprendizado, onde você pode estruturar na sua agenda cerca de oito seminários ou workshops por dia com algumas das cabeças mais interessantes do mundo quando se trata de comunicação. No fundo, foi preciso uma mãozinha dos subprimes pra limpar um pouco dos exageros de Cannes e trazer esse aspecto, digamos, educacional à tona: é uma boa forma de justificar o alto custo do Festival em uma época de retração de investimentos.
O lado bom dessa equação é que ela é verdadeira: da mesma forma como é possível passar uma semana em Cannes simplesmente badalando em bocas livres, também é possível sair de lá como quem passou por um curso intensivo no que anda se fazendo de mais inovador em comunicação na grande indústria. É uma questão de escolha e, em tempos de crise, a grande arte é fazer escolhas.
A ênfase nos seminários e workshops traz embutida uma segunda lógica espertíssima. Hoje em dia, quando chega em Cannes, é possível que você já conheça uma boa parte dos cases, peças, campanhas e estratégias de tanto email que você recebeu, tanta newsletter que você leu, tanto blog que acessou, tantos links que recebeu via Twitter, Delicious ou sabe-se lá mais o quê. Mas nos seminários e, especialmente, nos workshops, é possível saber um pouco mais sobre “como” são desenvolvidas e implantadas as soluções que fazem os olhos de marqueteiros e publicitários brilharem. Todos nós já estamos cansados de saber que é preciso trabalhar a comunicação de forma integrada e inovadora. Mas poder ver, ouvir e, eventualmente, trocar idéia com figuras globais sobre “como” fazer, bem isso é algo que não dá pra desprezar.
Bom, o texto vai ficar sem um grand finale porque continuamos a conversa na segunda-feira, quando passarei a escrever direto de Cannes. Já estou com minha lista de seminários e workshops feita. Procurei equilibrar, como fiz no ano passado, nomes consagrados com apresentações de pequenas e novas empresas – são as menos disputadas mas as que trazem insights mais interessantes.
Não esperem uma cobertura jornalística! Para isso, vocês podem ir no Meio e Mensagem, no Blue Bus ou no Advertising Age. A idéia é trazer aqui um olhar bastante particular, cruzando o conteúdo do Festival com os conceitos da Escala.
Fui! |